
Algo na vida chamou. O Universo inteiro lançou sementes para todos os lados desse Brasil, e nós, amigos conhecidos em seus extremos de felicidade e resistência, ouvimos. Ao centro do país viemos de mochilas e corações, reinar de felicidade na Chapada. Dizem que é místico, que é irmã de Machu Picchu. Eu digo que é lindo, e que vamos. E a primeira textura é a de uma longa estrada, que sai de uma modernosa e sem alma capital e penetra Goiás adentro, com suas nuances de lugar, seus olhos grandes, sua pele seca. Na estrada, uma areia fina se acumula aos montes, criando ondas, "costelas de vaca", que fazem o corpo tremer por quilômetros, por anos luz. E tremeu. Tudo por dentro saiu do eixo, e senti meu peito se abrir inteiro àquele lugar, àqueles dias. Toda a poeira fina que me soterrava, tudo que eu chamava sujeira, se fez perceber como o chão do meu caminho, e pela primeira vez em muito tempo, eu me entreguei e me transbordei nessa finura, dando as mãos, companheira. Somos a mesma e única mulher, eu e a terra, que se extravaza por alqueires infinitos de natureza viva, pulsante. Em meu corpo-cidade habitam homens, mulheres, crianças, passarinhos. Bailam todas as plantas que nasceram e nasceriam. Baila tudo. Meu corpo é palco. Onde todos os personagens se sorriem por nada e nunca saem de cena. Bailam vidas inteiras, de todas as possibilidades que existem. Cirandam meus homens e suas lindas cinturas, que me arrebatam, me dominam, cravam suas bandeiras no meu ventre e somem das minhas vistas, para entrar na minha lembrança. Habitam mulheres, com suas levezas roídas, dedos finos, vozes altas. Correm pelas costas os filhos que não tive, as crianças pé-sujo das risadas fartas, das bolas perdidas. Em meu ombro, uma casinha amarela com um pé de jambo, onde mora meu pai e seu cachimbo. Uma casinha que está sempre em barulho, de panelas ao chão e tangos ao alto. Numa profusão infinita de cores e águas, o espetáculo fruto desse divino se desdobra em pedras magníficas, insetos dourados e quartzos rosados de um sol que não se acaba, que não se acalma. E todo meu eu vai se despetalando, se desnudando para esse tempo sem número, aquele que não se importa em passar. E vou sentindo os pés pontificarem para longe do que eu entendia chão, e levantarem vôo, flutuando... tudo isso que em mim reside tornou-se leve, tornou-se parte. E eu encontrei tanto amor, tanto sorriso de graça que eu chorei de saudade, numa memória ancestral de uma vida que não é essa. Ganhei abraços que acalmaram meu coração sem pontas, que o fizeram parar por um instante e ficar ali,quietinho,com calor e por vontade. Em cada pessoa que cruzava meu dia, éramos nós e somente. A vida corria livre,despenteada. À esses dias, eu rendo meu corpo,eu dou minha beleza maior. A pureza de estarmos juntos, livres, de sermos tão delicados em nossa ponte de prazer. E vieste, loiro e grande. E vieste, morena e fogo. E o vórtice desses dias tão intensos se mesclou num bem querer sem fronteiras, que se estende e agora se confunde com as pernas de São Paulo, tão estampadas e brilhantes, com seus longos calcanhares de cimento e trânsito. Um momento, eu preciso de um beijo. Pra entender onde estou e o quê de mim voltou. Quem sou eu nessas duas(mais!) realidades. Chamar o tempo pra paixão calmar e a clareza vir me fazer um samba. E segue o fluxo do rio, da chapada, da Avenida. Libertando, libertemos.
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